Lula aposta alto com fim das bets: efeitos positivos devem demorar, enquanto Flávio pode colher frutos imediatos da reação

27/09/2026 às 11:03:08

Por Flavão Fraga


A decisão de Lula de colocar o fim das bets no centro da reta final da campanha tem uma lógica política fácil de compreender, mas envolve riscos igualmente evidentes. O presidente assinou, na sexta-feira, 25, a Medida Provisória que proíbe a exploração e a publicidade das apostas de quota fixa no país. O argumento social encontra terreno: levantamento do Banco Central já havia identificado forte participação de pessoas de baixa renda nas apostas e advertido que ainda seriam necessários mais dados para medir todos os efeitos econômicos e financeiros do fenômeno. É justamente nesse sentimento — o dinheiro da família indo embora na esperança de um ganho fácil — que Lula tenta tocar.

O problema político está no relógio. Faltando poucos dias para a eleição, Lula escolheu enfrentar um setor que criou raízes profundas no futebol, na publicidade, na televisão, nas plataformas digitais e entre influenciadores. Dos 20 clubes da Série A, 14 possuem patrocínio máster de casas de apostas, em contratos que somam pelo menos R$ 910 milhões. Antes mesmo da MP, clubes e federações já haviam reagido publicamente à possibilidade da proibição. Portanto, enquanto os eventuais benefícios sociais e econômicos da medida precisam de tempo para aparecer e ser mensurados, a perda de receitas de quem depende desse dinheiro começa a ser percebida imediatamente.

Existe ainda um argumento econômico importante, mas que precisa ser tratado como hipótese, e não como resultado garantido. Se uma parcela do dinheiro que hoje vai para apostas permanecer no orçamento das famílias, parte dela poderá retornar ao consumo de alimentos, comércio, serviços, pagamento de dívidas e outras atividades da economia real. Isso poderia produzir efeitos positivos sobre consumo e renda disponível. Mas nada disso acontece de uma semana para outra, e tampouco é possível assegurar que todo esse dinheiro terá esse destino — inclusive porque existe o risco de migração de apostadores para plataformas clandestinas. O próprio Banco Central, ao estudar o fenômeno, ressaltou a necessidade de mais dados para avaliar suas consequências com robustez.

E aí aparece o paradoxo eleitoral. Lula pode conquistar o apoio de famílias atingidas pelo vício em apostas e daqueles que enxergam as bets como um grave problema social. Ocorre que essas mesmas pessoas dificilmente terão, em tão curto espaço de tempo, condições de perceber concretamente os possíveis benefícios da decisão em suas próprias vidas. Do outro lado, a reação pode ser muito mais rápida. Clubes de futebol, empresas de comunicação, influenciadores e outros segmentos economicamente ligados às apostas possuem canais diretos com milhões de pessoas e capacidade de transformar a insatisfação em pressão pública quase instantaneamente. Isso não significa que torcedores ou seguidores automaticamente mudarão seus votos por causa das bets, mas significa que Lula abriu uma nova frente de desgaste justamente quando cada ponto percentual passou a ter enorme importância.

Talvez o maior questionamento estratégico esteja exatamente no momento escolhido. Uma medida dessa dimensão, tomada meses atrás, daria ao governo tempo para tentar demonstrar resultados, apresentar números sobre eventual redução do endividamento das famílias, acompanhar uma possível recuperação do consumo e construir uma narrativa econômica e social em torno da decisão. Tomada às vésperas da votação, entretanto, a iniciativa pode ser interpretada como uma reação açodada diante do crescimento de seu principal adversário nas pesquisas. Os possíveis benefícios não terão necessariamente tempo para chegar ao eleitor antes das urnas, enquanto os setores atingidos possuem capacidade de organizar imediatamente uma reação em grande escala. É uma aposta política em que os possíveis ganhos chegam a prazo, enquanto parte da conta vence à vista.

E Lula faz esse movimento justamente quando a disputa com Flávio Bolsonaro apertou. No Datafolha de 21 de setembro, Lula apareceu com 39% e Flávio com 36%, tecnicamente empatados dentro da margem de erro, depois de uma distância maior registrada anteriormente. Nesse ambiente, qualquer desgaste adicional pode se transformar em elemento relevante da campanha, ao mesmo tempo em que Flávio tenta reduzir a diferença e ampliar sua presença na reta final. Não é possível determinar antecipadamente qual será o peso eleitoral da questão das bets nem qual será o resultado das urnas. Mas a pergunta está posta: ao escolher uma pauta de possível benefício social e econômico no médio e longo prazo, mas capaz de provocar uma reação imediata de setores poderosos, Lula encontrou um ativo eleitoral ou acrescentou mais uma variável de risco a uma disputa que já estava apertada? Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos!