Emília enfrenta sequência de suspeitas em sua gestão e vê risco do discurso de “furar a bolha do Sistemão” desmoronar

A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, venceu a eleição prometendo romper com o velho “Sistemão”. A ideia era moralizar a máquina pública, combater práticas viciadas e inaugurar um novo padrão de gestão. Poucos meses depois, porém, a narrativa começou a tropeçar na realidade dos contratos.
A gestão que dizia enfrentar a velha engrenagem passou a conviver com empresas, organizações sociais e fornecedores envolvidos em investigações policiais, representações em tribunais de contas, contendas judiciais ou questionamentos de órgãos de controle. Pode ser má sorte. Pode ser falha de checagem. Pode ser leniência. Mas, quando a coincidência se repete, deixa de parecer acidente administrativo.
O caso mais recente envolve a AKSA, empresa baiana contratada pela Prefeitura de Aracaju e agora alcançada pela Operação Histograma, deflagrada pela Polícia Civil de Sergipe em 25 de agosto para apurar suspeitas de fraude em contratos, direcionamento de contratações e possível pagamento de vantagens indevidas. A empresa já era citada em questionamentos na Bahia, envolvendo serviços de limpeza urbana em Luís Eduardo Magalhães. Em Aracaju, foi contratada pela Emsurb para limpeza urbana e também aparece em contrato de apoio administrativo e operacional.
Nada disso, por si só, equivale a condenação. É preciso preservar a presunção de inocência de empresas, gestores e agentes públicos. Mas uma Prefeitura eleita sob o estandarte da moralidade não pode tratar histórico de questionamentos e riscos reputacionais como simples detalhe burocrático.
O problema não se limita à AKSA. Na Saúde, a gestão já havia sido cobrada por contratos milionários com Organizações Sociais sob suspeita ou com passivos relevantes. O IGC, contratado para gerir o Nestor Piva, carrega questionamentos no Ceará. A FABAMED, responsável pelo Fernando Franco, virou alvo de dúvidas por valores elevados e suspeita de pagamento em duplicidade envolvendo servidores municipais cedidos. O IDEAS, contratado para gerir a Atenção Primária, também entrou no radar por problemas fiscais e investigações federais em outro estado.
Na Educação, a apreensão de R$ 240 mil em espécie com o então diretor financeiro da Semed abriu uma ferida ainda sem explicação convincente. Emília exonerou o servidor, mas não esclareceu a origem do dinheiro, o fluxo de pagamentos, os contratos eventualmente relacionados e a real extensão do problema. Na Emsurb, contratações emergenciais entraram no radar da Polícia Civil e do TCE-SE. Na Seplog, a denúncia de arrecadação via Pix entre comissionados atingiu o coração administrativo da Prefeitura.
Emília não aparece, até aqui, como investigada criminalmente nesses episódios. Já quanto à responsabilidade política, é outra coisa. A prefeita escolhe secretários, nomeia dirigentes e responde pela máquina que governa. Não basta dizer que “cada secretário responde por sua pasta” ou fazer live para nada explicar, como se a Prefeitura fosse uma federação de feudos.
Cabe, então, a pergunta: Emília foi ingênua ao contratar empresas e entidades sob suspeita, displicente ao não checar antecedentes ou politicamente capturada por um novo sistema de interesses? Qualquer resposta é ruim. Se foi ingenuidade, falta preparo. Se foi displicência, falta controle. Se foi captura, falta comando. E, se foi método, a promessa de combater o “Sistemão” virou apenas uma velha peça de campanha.
Muitas dessas crises gravitam em áreas estratégicas. Educação e Saúde concentram orçamentos bilionários e são pastas associadas, nos bastidores, ao grupo dos irmãos Edvan e Eduardo Amorim, cuja influência sobre a sustentação do governo é tema recorrente na política local.
Não se trata de afirmar culpa antecipada. Trata-se de cobrar filtro, checagem prévia, transparência e rigor antes de assinar contratos. A cada nova empresa sob suspeita, contrato mal explicado e auxiliar exonerado depois do escândalo, cresce a impressão de que o velho “Sistemão” não foi destruído. Apenas mudou de endereço, ganhou nova embalagem e segue operando dentro da Prefeitura que prometia combatê-lo.












