Vice-prefeito critica autonomia do prefeito de Porto da Folha e acaba flagrado como “marionete” de terceiros

26/01/2026 às 11:25:24

Durante entrevista concedida ao programa do radialista Bob Júnior, na Rádio Educadora de Frei Paulo, na semana passada, o vice-prefeito de Porto da Folha, Saininho de Manoel de Rosinha (PT), voltou a fazer o que já se tornou rotina desde o rompimento político: uma série de críticas públicas ao prefeito Everton da Saúde. Entre os ataques, insistiu na narrativa de que o gestor municipal não teria autonomia administrativa, sendo supostamente influenciado por terceiros.

O discurso, no entanto, sofreu um abalo sério de credibilidade ainda durante a entrevista. A transmissão oficial da emissora ocorria exclusivamente pelo rádio. A live em vídeo estava sendo realizada apenas pela página pessoal de Saininho no YouTube. Durante o intervalo comercial do programa, a assessoria do vice-prefeito cometeu um erro grave ao manter a transmissão ao vivo ativa, permitindo que os bastidores continuassem sendo exibidos ao público.

 

Foi nesse momento que a situação fugiu completamente do controle. Nas imagens e no áudio que seguiram sendo transmitidos, a Dra. Jane — suplente de vereadora pelo PT, que obteve apenas 73 votos nas últimas eleições, mesmo contando com o apoio de Saininho e do ex-prefeito Manoel de Rosinha — aparece orientando de forma explícita o vice-prefeito sobre como deveria conduzir os ataques ao prefeito Everton da Saúde. As instruções envolviam o tom das falas, a forma das críticas e, sobretudo, a insistência na tese de que o prefeito não teria autonomia e que “alguém falaria por ele”.

O episódio escancarou uma contradição difícil de sustentar: quem acusa o outro de ser “marionete” acabou flagrado recebendo orientações diretas em pleno exercício de uma entrevista pública. Mais do que um deslize técnico, o chamado “microfone aberto” virou símbolo do atual momento vivido pelo PT em Porto da Folha, marcado por desgaste, divisões internas e perda de credibilidade política.

A contradição se torna ainda mais evidente quando se observa a própria estrutura da gestão municipal. O tio do vice-prefeito, conhecido como Messias “Cheirinho”, filiado ao PT e atual secretário de Administração, permanece na gestão, alinhado política e administrativamente ao prefeito Everton da Saúde, demonstrando que o discurso de ruptura total não se sustenta nem dentro da própria família do vice.

O partido teve, recentemente, a oportunidade de iniciar um processo de reconstrução a partir da candidatura de Everton da Saúde — um nome novo, sem grandes arestas, que conseguiu liderar um projeto coletivo e ampliar o diálogo institucional, inclusive com quadros do próprio PT. Ainda assim, esse projeto acabou sendo minado pela pressa, pela disputa desmedida por protagonismo e pelo comportamento individualista do vice-prefeito e de seu núcleo familiar, que passaram a priorizar interesses próprios em detrimento do coletivo.

Esses acontecimentos provocaram um racha interno no partido. Após o rompimento, diversas lideranças locais deixaram de acompanhar politicamente Saininho e passaram a caminhar com o prefeito Everton da Saúde. Entre elas estão Gorete, do MST, e Elielson, vice-presidente do PT municipal, evidenciando o esvaziamento do grupo ligado ao vice-prefeito e o fortalecimento da atual gestão como principal referência política do partido em Porto da Folha.

No plano estadual, o cenário também revela mudanças importantes. O senador Rogério Carvalho e o deputado federal João Daniel seguem mantendo diálogo institucional e partidário com Saininho e com todas as alas do PT no município. No entanto, ambos passaram a reconhecer o prefeito Everton da Saúde como a principal referência política do partido em Porto da Folha. Everton também conta com o apoio do deputado estadual pelo PT, Chico dos Correios, reforçando ainda mais sua posição como liderança central da legenda na cidade.

Além disso, outra contradição vem sendo cada vez mais percebida pela militância petista. Embora Saininho e seu pai, o ex-prefeito Manoel de Rosinha, se apresentem como lideranças históricas do PT e defensores do presidente Lula, na prática eleitoral esse discurso nem sempre se confirma. Em diferentes disputas estaduais e federais, ambos optaram por apoiar candidatos de outras legendas, como a deputada estadual Lidiane Lucena (Republicanos), deixando o projeto partidário em segundo plano.

O problema é que, passado o período eleitoral, a militância volta a ser convocada a “fechar fileiras”, como se essas escolhas não tivessem ocorrido. Esse comportamento recorrente vem sendo interpretado como oportunismo político e tem empurrado o PT de Porto da Folha para um caminho de desgaste e autodestruição, resultado direto do individualismo e da personalização excessiva da política.

O episódio do “microfone aberto”, portanto, não foi um fato isolado. Ele funciona como um retrato simbólico de uma liderança jovem, fragilizada e presa a práticas antigas, que sustenta um discurso que não se confirma na realidade dos fatos. Enquanto a família de Manoel de Rosinha tenta se apegar ao PT como se fosse um feudo particular, é o partido que paga o preço político por insistir no individualismo e na política do ódio, aprofundando o isolamento e o desgaste junto à militância e à sociedade.