Sabatina de Augusto Cury expôs o desfile do mau jornalismo: abreviação intolerante de ideias, conclusões maldosas e recortes fora de contexto

30/08/2026 às 12:55:28
Resumo: Entrevista na Globo foi marcada por interrupções que dificultaram a conclusão dos raciocínios de Cury e desviaram o foco de questões fundamentais ao país para detalhes de pouca relevância na agenda nacional. Os jornalistas globais cobraram uma solução mágica e em tiro curto para o rombo trilionário do governo atual. A operação de drone acabou tratada como o grande assunto da sabatina. Tempos difíceis!

Sabatina de Augusto Cury expôs o desfile do mau jornalismo: abreviação intolerante de ideias, conclusões maldosas e recortes fora de contexto

Entrevista na Globo foi marcada por interrupções sucessivas que dificultaram a conclusão dos raciocínios do candidato e, na avaliação crítica, desviaram o foco de questões fundamentais ao país, que sequer foram abordadas, para detalhes sem tanta relevância na agenda nacional. Os jornalistas globais queriam do entrevistado uma solução mágica e em tiro curto para resolver o rombo trilionário do governo atual. A operação de drone foi tratada como assunto mais importante da sabatina. Tempos difíceis!

A sabatina de Augusto Cury na Globo, neste sábado, deveria representar uma oportunidade para que o eleitor conhecesse melhor as propostas do candidato à Presidência. Cury, que vem se apresentando como uma alternativa à polarização entre lulistas e bolsonaristas, acabou protagonizando momentos de tensão com Renata Vasconcellos e César Tralli. Mais do que as respostas do candidato, porém, chamou atenção a maneira como a entrevista foi conduzida.

O mau jornalismo se revelou na postura deliberadamente mal-educada, despreparada e intolerante dos entrevistadores, que, em diversos momentos, não permitiram que Cury concluísse uma linha de raciocínio antes de apresentar outra pergunta ou uma nova contestação. Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas o desempenho do candidato e passa a atingir a própria qualidade da informação oferecida ao público.

Havia temas realmente importantes a serem discutidos, como economia, corrupção, desvio de recursos públicos e o gigantesco problema fiscal brasileiro. Entretanto, boa parte da entrevista concentrou-se em questionamentos sobre detalhes da operação de um drone apresentado pelo candidato como instrumento de combate à violência contra a mulher. É legítimo questionar a viabilidade de uma proposta, mas parece desproporcional exigir, em poucos minutos, um nível de detalhamento operacional que dificilmente seria cobrado dessa maneira de qualquer candidato.

A contradição fica ainda mais evidente quando se observa o tratamento dado a outros candidatos e, especialmente, ao próprio presidente da República em suas entrevistas recentes. Afinal, quantas vezes se vê a mesma insistência para que o presidente explique, em detalhes, como pretende enfrentar a grave situação econômica do país, o desequilíbrio das contas públicas e os problemas fiscais que se acumulam?

Uma sabatina presidencial precisa ser dura. Jornalistas têm o direito — e o dever — de confrontar candidatos, apontar contradições e exigir explicações. Mas existe uma diferença entre questionar e impedir uma resposta. No momento em que o entrevistado é interrompido repetidamente, o público deixa de conhecer o raciocínio completo do candidato e passa a assistir apenas ao embate entre entrevistador e entrevistado.

Foi nesse contexto que Cury reagiu à apresentadora: “Aonde você viu isso?”. Em outro momento, diante da insistência sobre os drones, disparou: “Esquece o drone”. As frases ganharam repercussão e rapidamente se transformaram em material para cortes nas redes sociais. Cury pode ser criticado pela maneira como reagiu, mas não é razoável ignorar que ele estava tentando recuperar o direito de concluir suas próprias respostas.

Em uma época marcada pela informação rápida e descartável, tornou-se comum transformar um trecho de poucos segundos em toda a narrativa sobre uma entrevista. O candidato é interrompido, reage, o trecho é recortado e, depois, surgem análises sobre aquilo que supostamente teria acontecido. O resultado é um jornalismo cada vez mais preocupado com o momento “lacrador” e cada vez menos interessado em permitir que o cidadão compreenda um raciocínio completo.

Cury, evidentemente, não está acima das críticas. Algumas de suas propostas precisam de maior detalhamento, sobretudo em relação a custos, execução e fontes de recursos. Também demonstrou dificuldades diante da pressão de uma entrevista nacional. Isso, entretanto, não autoriza a imprensa a tratá-lo como alguém que precisa apenas ser encurralado até produzir uma frase de efeito.

A repercussão nas redes sociais mostrou que parte do público percebeu esse problema e criticou justamente as interrupções e a postura dos apresentadores. Houve também críticas a Cury, naturalmente. Mas o fato de a condução da entrevista ter se tornado objeto de discussão demonstra que a questão não estava apenas nas respostas do candidato.

O jornalismo da Globo deveria buscar respostas, esclarecer os cidadãos e confrontar ideias — não impedir que elas fossem apresentadas. O jornalista não precisa ser amigo do candidato, mas também não deve transformar-se em seu adversário. Uma boa sabatina não é aquela em que o entrevistador consegue “vencer” o entrevistado. É aquela em que o eleitor consegue ouvir, compreender e decidir. E, para isso, é preciso deixar o candidato falar.