Quando Emília tenta punir a voz crítica de Candisse, desestimula a participação feminina e desfaz o mesmo caminho que a fez chegar ao poder

03/02/2026 às 13:52:11

Há símbolos que carregam responsabilidades. Emília Corrêa chegou à Prefeitura de Aracaju como a primeira mulher a ocupar o cargo — um feito histórico que deveria pavimentar mais vozes femininas na política, não estreitar o caminho. Afinal, sua própria trajetória foi forjada no Parlamento Municipal sob o signo da cobrança dura, da ironia afiada e da irreverência como ferramenta legítima de fiscalização. Emília cresceu politicamente apontando falhas de gestões anteriores, inclusive do ex-prefeito Edvaldo Nogueira, defendendo — com razão — que uma oposição forte ajuda qualquer gestor a errar menos, acertar mais e prestar contas à sociedade.

Por isso causa estranhamento, e lamento, ver a mesma líder, agora no poder, recorrer ao Judiciário para enquadrar a atuação crítica de outra mulher que disputou a eleição, foi legitimada por uma parcela considerável do eleitorado e, portanto, tem o direito — e o dever político — de exercer oposição. O processo judicial ao qual se faz referência foi protocolado no final de 2025, motivado justamente por opiniões, questionamentos e críticas públicas, e segue em tramitação, ainda pendente de análise definitiva pelo Judiciário.

Candisse Carvalho, jornalista, mãe, mulher e ex-candidata, fez o que se espera de quem fiscaliza: questionou contratos, cobrou explicações, apontou documentos públicos publicados em Diário Oficial e, em alguns momentos, utilizou a linguagem da irreverência para comunicar sua crítica. Não afirmou verdades absolutas; colocou dúvidas, pediu transparência, exigiu respostas. Isso é oposição.

A política democrática comporta o incômodo. Comporta o humor. Comporta a ironia. Chamar a prefeita de “prefeita TikTok” — referência evidente à presença digital que a própria Emília cultiva — não é crime; é linguagem política, é comunicação contemporânea, é jogo democrático. Punir opinião, sobretudo quando exercida por uma mulher que representa eleitores reais, é um sinal perigoso.

E esse ponto se agrava quando se observa o cenário atual da participação feminina na política. Hoje, não é exagero afirmar que os partidos vivem um dilema: há dificuldade real de encontrar mulheres dispostas a entrar na disputa, tanto que muitos não conseguem sequer preencher a cota mínima exigida por lei. Em um ambiente historicamente hostil, quando surgem mulheres de expressão, com voz firme, inteligência, preparo e disposição para lutar, o caminho natural deveria ser o do debate, da divergência política e, se fosse o caso, do pedido de retificação, de direito de resposta ou mesmo da retirada pontual de algum conteúdo — jamais o da tentativa de enquadramento criminal como forma de punição, desestímulo ou afastamento.

Emília sabe disso. Sabe que as mulheres ainda são mais frágeis dentro do processo político, mais expostas, mais cobradas e menos protegidas. Por isso, mais do que qualquer outro ator político, deveria compreender que é uma honra disputar espaço, ideias e narrativas com outras mulheres. Transformar esse embate em litígio judicial passa uma mensagem errada e contraproducente.

Cabe ao Judiciário analisar com cautela e equilíbrio, para que a liberdade de expressão — pilar do regime democrático — não seja comprimida por decisões que, a pretexto de proteger a honra, acabem por tolher a crítica política legítima. E cabe, sobretudo, à prefeita refletir. O poder muda o lugar de fala, mas não deveria mudar os princípios. Emília poderia estar celebrando o fato raro de “duelar” politicamente com outra mulher. Em vez disso, escolheu o caminho do processo.

Por isso, a solidariedade a Candisse Carvalho não é apenas corporativa; é democrática. Silenciar a oposição é sempre um mau sinal. Quando isso ocorre entre mulheres, o retrocesso é ainda maior. A política perde. As mulheres perdem. E Aracaju também.