Opinião: "O sonho que ainda precisamos sonhar"

28/08/2025 às 18:56:02

Em 28 de agosto de 1963, diante do Memorial de Lincoln, Martin Luther King Jr. não fez apenas um discurso,  ele ofereceu ao mundo um mapa moral. Quando disse “I Have a Dream”, não falava somente aos Estados Unidos, mas à humanidade inteira. E é curioso ou talvez dramático que mais de sessenta anos depois ainda precisemos repetir essas palavras como se fossem novidade, como se o sonho ainda estivesse na fase do sonho. 

King acreditava que a não violência, a fraternidade e a igualdade poderiam derrubar muros erguidos há séculos. Ousou imaginar um país onde crianças negras e brancas pudessem brincar juntas, onde homens e mulheres fossem avaliados pelo caráter e não pela cor da pele. O detalhe incômodo é que, mesmo depois de conquistas históricas, esse sonho ainda tropeça na realidade. Deram  um nó nos separa entre negros ou brancos, héteros ou homossexuais, direita ou esquerda, ricos ou pobres. Esquecem que somos todos humanos, perfeitos mas nossas imperfeições. 

Afinal, será que avançamos tanto assim? As segregações  não desapareceram apenas mudou de face. Sairam  das placas que separavam bebedouros e escolas, mas entrou nas estatísticas de violência, na diferença salarial, no preconceito disfarçado em piadas ou olhares. A segregação legal pode ter sido derrubada, mas a segregação social continua erguida em muros invisíveis.

É aí que o discurso de King ganha ainda mais força. Ele não se limitava a denunciar o racismo americano dos anos 1960. Ele falava de algo maior: de um princípio universal de igualdade. Quando dizia que “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”, King antecipava os dilemas que hoje enfrentamos: a xenofobia contra imigrantes, a intolerância religiosa, o machismo estrutural, a homofobia, e a desigualdade que condena milhões à miséria.

O sonho não era só de pele. Era de humanidade.

Mas, sejamos francos, a humanidade ainda deve esse sonho, não à uma outra categoria ou raça, mas a si mesma. Nos Estados Unidos, movimentos como o Black Lives Matter mostram que a violência contra a população negra permanece um problema crônico e alguns casos o próprio movimento protagonizou violência.  No Brasil, não é diferente, jovens negros seguem sendo a maioria esmagadora das vítimas da violência urbana. No mundo inteiro, vemos crescer discursos de ódio, nacionalismos excludentes e governos que se apoiam mais no medo do que na esperança e o pior se disfarçando de democratas e populares. 

Por isso, recordar King não é apenas reverenciar a história. É um exercício de honestidade,  estamos falhando em realizar esse sonho. E a pergunta que fica é se temos coragem de assumi-lo como tarefa ou se vamos continuar aplaudindo suas palavras sem aplicá-las na vida prática.

O mais impressionante é que King não falava de ódio, mas de amor. Não pedia vingança, mas justiça. Seu sonho era radical não por incitar a guerra, mas por exigir a paz verdadeira,  aquela que só existe quando todos têm direitos iguais. Talvez a gente só precise de tolerância. 

Hoje, quando ouvimos “Eu tenho um sonho”, deveríamos completar: “E eu também preciso tê-lo”. Porque não basta lembrar o sonho de King; é preciso adotá-lo como compromisso. Se cada geração não o fizer, continuará a repassar para a seguinte uma conta moral que nunca fecha.

No fim, o maior risco não é que o sonho de Martin Luther King morra. O maior risco é que nós, cansados ou acomodados, deixemos de sonhar junto com ele.
Murilo Gomes 
Jornalista - empreendedor