No Brasil, até o calendário precisa de férias!

Por Murilo Gomes
O Brasil é um país extraordinário. Temos um povo trabalhador, criativo e uma capacidade impressionante de transformar qualquer sexta-feira em domingo. Somos especialistas em feriados: nacionais, estaduais, municipais, religiosos e aqueles que nem feriados são, mas acabam virando. Sem esquecer a genial invenção brasileira: o ponto facultativo!
Em meio às discussões sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho, esquecemos de colocar na mesa um personagem fundamental: o calendário brasileiro.
Não sou contra o descanso. Muito pelo contrário! Mas precisamos discutir quantos dias efetivamente trabalhamos e, principalmente, quanto conseguimos produzir.
Um exemplo dessa contradição acontece esta semana em Aracaju.
Empresas com pendências tributárias precisam correr para regularizar sua situação e evitar problemas com o Simples Nacional. Aliás, o Simples é uma das maiores ironias brasileiras. Como ouvi recentemente, o Simples está para os impostos assim como o cantor Belo está para a beleza. É preciso muita imaginação para encontrar alguma relação!
O empresário corre, o contador se desdobra, os sistemas complicam e os prazos apertam.
Eis que a Prefeitura de Aracaju transfere o ponto facultativo do Dia do Servidor Público para sexta-feira, 30 de outubro. Como segunda-feira, 2 de novembro, é feriado de Finados, teremos quatro dias consecutivos sem expediente administrativo regular.
Para o servidor, um merecido descanso. Para o empresário que precisa resolver pendências junto ao município, mais uma preocupação.
O curioso é que o poder público estabelece prazos, exige pontualidade, cobra impostos, aplica multas e juros, mas nem sempre garante ao contribuinte as condições necessárias para cumprir suas obrigações.
E os custos das empresas? Esses não tiram férias! Aluguel, energia, salários, impostos e juros continuam correndo. Aliás, os juros bancários são provavelmente os trabalhadores mais dedicados do Brasil: não descansam nem no Natal!
É evidente que os feriados também movimentam setores como turismo, comércio e lazer. Mas seus efeitos são diferentes para cada atividade econômica.
Por isso, discutir a escala 6x1 é legítimo e necessário, mas o debate precisa considerar a produtividade, os custos de contratação, a burocracia, a eficiência dos serviços públicos e a quantidade de dias úteis disponíveis ao longo do ano.
Não podemos discutir apenas a redução da jornada sem discutir também os obstáculos que impedem o Brasil de produzir mais e melhor.
Talvez precisemos reduzir não apenas a escala de trabalho, mas também a escala da burocracia, dos impostos e das dificuldades impostas a quem empreende.
Afinal, queremos trabalhar menos, produzir mais e simplificar tudo. Mas continuamos criando dificuldades para vender facilidades.
No Brasil, até para trabalhar é preciso consultar o calendário. E, para dar conta de tantas obrigações, só mesmo fazendo hora extra!












