Ano atípico revelou nova dinâmica das doenças respiratórias no Brasil

02/02/2026 às 09:20:16
Reprodução: Freepik

O ano de 2025 apresentou um comportamento fora do padrão das síndromes respiratórias agudas graves (SRAGs) no Brasil, com circulação intensa e prolongada de vírus respiratórios além do período sazonal tradicional. O cenário resultou em sobrecarga do sistema de saúde e aumento expressivo de hospitalizações e óbitos ao longo do ano.

Dados do InfoGripe, sistema do Sistema Único de Saúde (SUS) que monitora a circulação desses vírus, apontam que 2025 registrou mais de 230 mil casos de SRAG e 13.678 mortes. Um dos principais fatores que chamou atenção dos especialistas foi a ocorrência de duas ondas de influenza A no mesmo ano, estendendo-se pela primavera e pelo verão, um comportamento incomum no padrão epidemiológico brasileiro.

Além da influenza, outros vírus mantiveram pressão constante sobre o sistema de saúde. O vírus sincicial respiratório (VSR) liderou as notificações de casos graves, especialmente entre crianças, enquanto a Covid-19, mesmo com menor incidência ao longo do ano, seguiu com impacto relevante na mortalidade, sobretudo entre idosos.

“O desafio é amplo porque há necessidade de maiores gastos para realizar diagnósticos diferenciais. Tivemos altas taxas de internação por influenza, Covid-19 e VSR, o que vai sobrecarregando o sistema de saúde”, explica o infectologista Moacyr Silva Junior, do Hospital Israelita Albert Einstein.

A pesquisadora Tatiana Portella, do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do InfoGripe, reforça o caráter atípico do ano. “Foi um período fora do padrão tanto pela intensidade da influenza A quanto pela ocorrência de uma segunda onda, o que geralmente não acontece. Normalmente, observamos uma onda entre abril e maio, mas em 2025 houve circulação também na primavera e no verão”, destaca.

Vigilância e redefinição do cenário

Nesse contexto, pesquisadores da Fiocruz identificaram, em dezembro, o subclado K do vírus influenza A (H3N2) pela primeira vez no Brasil. O caso foi classificado como importado e não há indícios de transmissão local, mas o achado reforça a necessidade de vigilância contínua.

Cada vírus respiratório apresenta comportamento distinto. A influenza A segue associada a maior mortalidade em idosos; o VSR é a principal causa de internações graves em crianças pequenas; o rinovírus, antes considerado de menor gravidade, aparece com frequência entre casos graves pediátricos; e a Covid-19, embora menos frequente, mantém peso elevado nos óbitos.

O início de 2026 tem mostrado sinais de alívio. O boletim do InfoGripe referente à primeira semana epidemiológica do ano indica queda nas tendências de curto e longo prazo e ausência de níveis de alerta na maior parte do país. A exceção é a região Norte, onde alguns estados ainda registram aumento de hospitalizações por influenza A entre adultos e idosos.

Apesar disso, especialistas alertam que ainda é cedo para projeções definitivas. “Para influenza e VSR, esperamos aumento no outono e inverno. Já a Covid-19 é menos previsível, pois depende do surgimento de novas variantes”, explica Portella.

Vacinação segue como principal desafio

A baixa cobertura vacinal foi um dos fatores que contribuíram para o cenário observado em 2025. Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação contra a gripe entre os grupos prioritários ficou em 53,43%, enquanto a cobertura contra a Covid-19 foi ainda menor, de 3,49%.

“O problema crônico é a baixa adesão às vacinas. Isso favorece a circulação prolongada dos vírus”, afirma Moacyr Silva Junior. Segundo ele, embora a vacina da gripe proteja contra as linhagens circulantes, as temporadas atípicas contribuíram para ondas sucessivas da doença.

Em um cenário de incertezas, a prevenção continua sendo fundamental. Manter a vacinação em dia, adotar etiqueta respiratória, evitar circular com sintomas gripais e utilizar máscara em ambientes de maior risco seguem sendo medidas essenciais para reduzir a transmissão e o impacto das doenças respiratórias. “Muitos cuidados básicos foram abandonados. Parece que esquecemos as lições da pandemia”, conclui o infectologista.

Com informações do F5 News