UFS desenvolve enxerto inovador e de baixo custo para reconstrução de cascos de jabutis

11/03/2026 às 10:32:10

Pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe desenvolveram uma técnica inovadora para reconstrução de cascos de jabutis utilizando enxertos sintéticos. O procedimento, realizado no hospital veterinário da instituição, tem ampliado as possibilidades de tratamento para animais silvestres que sofrem traumas graves na carapaça.

A tecnologia emprega placas sintéticas flexíveis, capazes de acompanhar o crescimento do animal, o que facilita o processo de recuperação e reduz significativamente os custos do tratamento. A técnica vem sendo estudada e aperfeiçoada por pesquisadores da universidade ao longo dos últimos anos.

O uso das lâminas sintéticas começou em 2018, quando a equipe foi acionada após um jabuti-piranga sofrer um atropelamento por um trator de aproximadamente três mil quilos. O impacto provocou uma fratura severa na carapaça do animal, praticamente dividindo o casco ao meio. A gravidade do caso levou os pesquisadores a buscar alternativas para reparar a estrutura.

Segundo o médico veterinário e professor do Departamento de Medicina Veterinária da UFS, Victor Fernando Santana, a medicina voltada para animais silvestres ainda é uma área relativamente recente dentro da veterinária, o que torna o tratamento desse tipo de lesão um desafio.

“Essas placas têm algumas vantagens bem interessantes. Elas são flexíveis, ou seja, à medida que o animal vai crescendo, o material também se molda ao corpo. Isso permite utilizar o enxerto tanto em filhotes quanto em animais juvenis”, explicou.

Outro ponto destacado pelo professor é o impacto no custo do tratamento. “A gente tem uma redução de pelo menos 80% a 90% do valor quando comparado a métodos mais tradicionais”, afirmou.

Além de ser mais acessível, o material utilizado possui características importantes para a recuperação dos animais, como toxicidade reduzida e impermeabilidade, fatores que ajudam a evitar infecções na carapaça lesionada. Os pesquisadores também trabalham no desenvolvimento de versões que possam incorporar medicamentos para acelerar a cicatrização.

“O uso dessas placas permite proteger a carapaça danificada e evitar infecções secundárias. Com as pesquisas que estamos desenvolvendo, pretendemos também incluir medicamentos nessas placas para auxiliar e potencializar ainda mais a regeneração do casco”, acrescentou Victor Fernando.

O hospital veterinário da UFS atua em parceria com órgãos ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e a Administração Estadual do Meio Ambiente, que encaminham animais silvestres feridos para atendimento especializado.

Caso Rosinha

Um dos casos mais conhecidos acompanhados pela equipe é o da jabuti chamada Rosinha, que está em tratamento há cerca de três anos.

De acordo com o médico veterinário João Victor, o animal sofreu queimaduras de segundo grau que provocaram a perda de partes da carapaça, deixando áreas internas expostas.

“A Rosinha é uma das nossas pacientes mais antigas. Ela sofreu um traumatismo por queimadura de segundo grau e teve perda de placas do casco, com exposição da cavidade celomática. A partir disso, foi encaminhada pela Adema para a realização dessa técnica de enxerto”, explicou.

O tratamento exige manutenções periódicas na estrutura aplicada sobre o casco, geralmente realizadas a cada seis meses ou um ano. Segundo o veterinário, o material utilizado apresenta boa durabilidade e se adapta ao crescimento do animal.

“Ele oferece resistência ao dano físico, mas também flexibilidade, se adaptando ao crescimento do animal sem prejudicar a anatomia do casco. Além disso, tem baixo índice de rejeição e custo muito menor quando comparado a outros procedimentos”, destacou.

Os resultados da técnica já começaram a ser apresentados em congressos e publicações científicas, e, de acordo com os pesquisadores, o método tem despertado interesse de outras instituições. A expectativa é que a solução possa contribuir para ampliar o tratamento de quelônios feridos em diferentes regiões do país.

Fonte: UFS/SE