Sergipe acima das vaias: democracia, respeito e o maior investimento da nossa história

29/05/2026 às 15:58:20

Por Rafael Melo

A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Sergipe marcou um momento histórico para o nosso estado. O anúncio de mais de R$ 70 bilhões em investimentos da Petrobras, com impacto direto na produção de petróleo, gás, fertilizantes, geração de empregos e fortalecimento da economia sergipana, não pode ser tratado como um evento menor, nem reduzido às disputas naturais da política.

Foi, antes de tudo, um ato de Estado.

Por isso, merece registro o episódio ocorrido quando o senador Laércio Oliveira iniciou sua fala e foi vaiado por parte do público presente. A vaia, embora faça parte da manifestação popular, não pode se sobrepor ao respeito democrático, sobretudo em um momento em que Sergipe estava diante de uma agenda estratégica para o seu futuro.

Laércio esteve ali não apenas como representante de um campo político, mas como senador da República por Sergipe. E sua presença tinha plena legitimidade. Mais do que isso: tinha pertinência. O senador tem atuação diretamente ligada a temas centrais do evento, como gás natural, fertilizantes, desenvolvimento industrial e segurança energética. Foi relator do Novo Marco Regulatório do Gás Natural e é autor do PROFERT, programa que busca reduzir a dependência externa de fertilizantes e fortalecer a soberania nacional. O Parlamentar é uma das maiores lideranças do Congresso Nacional quando o assunto é energia, gás natural e fertilizantes. 

Diante das vaias, Laércio demonstrou altivez. Não reagiu com ressentimento, não transformou o desconforto em confronto e não diminuiu a importância do momento. Ao contrário, manteve a postura de quem compreende que a política exige firmeza, serenidade e compromisso com algo maior do que a disputa imediata.

Também merece reconhecimento a sobriedade do presidente Lula. Ao cobrar respeito, Lula agiu como chefe de Estado. Sua postura lembrou outros momentos de seu atual governo em que repreendeu manifestações hostis contra adversários políticos, como ocorreu com Arthur Lira, no lançamento do Novo PAC, e com Tarcísio de Freitas, durante a agenda do túnel Santos-Guarujá.

Esse gesto importa. Porque democracia não é apenas vencer eleições ou reunir apoiadores. Democracia é também reconhecer a legitimidade do outro, respeitar instituições, ouvir adversários e compreender que determinadas pautas pertencem ao povo, não a um partido.

Sergipe precisa amadurecer esse entendimento. O investimento anunciado pela Petrobras pode transformar a economia estadual nos próximos anos. O projeto Sergipe Águas Profundas, a retomada da Fafen, o fortalecimento da cadeia do gás natural, a produção de fertilizantes e a geração de milhares de empregos representam uma oportunidade rara de desenvolvimento.

E oportunidades dessa dimensão exigem grandeza.

A política continuará existindo. As divergências continuarão existindo. O debate partidário é legítimo e necessário. Mas há momentos em que o interesse público precisa falar mais alto. Quando está em jogo o futuro econômico de Sergipe, a geração de emprego, a industrialização, a segurança energética e a soberania nacional, é preciso separar o palanque da responsabilidade institucional.

Sergipe receberá o maior investimento da sua história. Para que esse investimento produza bons frutos, políticos e população precisam saber distinguir o que são questões de Estado e o que são questões políticas.

Rafael Melo é advogado, especialista em Direito Eleitoral e Democracia, com atuação em Direito Público e Gestão Pública. Exerceu assessoria no Senado Federal, na Câmara dos Deputados e na Câmara de Vereadores de Aracaju. Foi Secretário-Executivo do Trabalho no Estado de Sergipe. Dedica-se ao estudo da democracia, aliando formação jurídica à experiência prática no setor público.