"Rodrigo Valadares colocou bodes na sala e agora a chapa do PL carrega bolas de chumbo"

Por Flavão Fraga
Existe um velho adágio popular segundo o qual, quando o bode está na sala incomodando, alguém precisa tirá-lo. Rodrigo Valadares (PL) vive uma versão mais complicada da história: foi ele quem abriu a porta.
Ao assumir o PL em Sergipe, Rodrigo poderia ter concentrado suas forças em três prioridades: Flávio Bolsonaro para presidente, sua própria candidatura ao Senado e a formação de uma chapa competitiva para deputado federal, onde está sua esposa, Moana Valadares. Preferiu ir além e preencher toda a majoritária, lançando Ricardo Marques ao Governo e Coronel Rocha para a segunda vaga ao Senado. Duas apostas arriscadas que agora começam a pesar justamente sobre aquilo que deveria ser prioridade.
Nem precisava ser assim. Alessandro Vieira e Edvaldo Nogueira, por exemplo, entraram na disputa apresentando apenas seus próprios nomes ao Senado e deixando o segundo voto livre. Rodrigo poderia ter feito algo semelhante. Sem candidato ao Governo e sem um segundo nome obrigatório ao Senado, teria liberdade para transitar entre diferentes grupos e cobrar basicamente três compromissos: Flávio para presidente, Rodrigo para o Senado e apoio à chapa de federal do PL. O restante estaria liberado. Mais simples, mais leve e politicamente mais inteligente.
Mas Rodrigo conhecia os riscos. Rocha é bolsonarista de raiz, porém apresentou expressão eleitoral bastante limitada quando disputou a Prefeitura de São Cristóvão, em 2020, obtendo pouco mais de 600 votos. Ricardo, por sua vez, nunca teve no bolsonarismo uma marca de sua trajetória e, até agora, não conseguiu conquistar esse eleitorado nem decolar nas pesquisas, permanecendo na casa de um dígito e sem convencer a direção nacional do PL de que sua candidatura merece um grande investimento.
E aí chegou a conta. Nos bastidores, comenta-se que, diante da resistência da direção nacional em financiar Ricardo e Rocha nos patamares esperados, Rodrigo teria assumido o compromisso de garantir cerca de R$ 300 mil para Ricardo e R$ 250 mil para Rocha com recursos administrados pelo PL estadual. Muito abaixo dos milhões desejados. E, mesmo assim, já existem sinais de insatisfação. Mas há uma realidade inconveniente nessa discussão: política não é filantropia e fundo eleitoral não é programa de distribuição de renda. Partido grande investe pesado onde enxerga voto, competitividade e possibilidade de vitória.
Rodrigo pode argumentar, com razão, que não decide sozinho onde Brasília coloca seus milhões. Só que foi ele quem montou o tabuleiro. Agora precisa gastar energia e recursos para sustentar candidaturas que não ganharam musculatura, perdeu liberdade para articular seu próprio projeto e ainda começa a enfrentar fogo amigo dentro da própria base.
No fim, talvez o erro não tenha sido deixar de alimentar suficientemente os bodes. Foi convidá-los para a sedutora sala chamada “chapa majoritária”. Rodrigo abriu a porta, chamou para entrar e mostrou onde sentar. O problema é que, depois que alguém senta nessa cadeira, começa a gostar dela — e também a achar que merece tratamento de candidato grande.
Agora Rodrigo carrega duas bolas de chumbo na caminhada e enfrenta um desafio bem mais complicado do que colocá-las ali: é descobrir como tirar os bodes da sala sem irritá-los — e, principalmente, sem correr o risco de que eles derrubem a casa.












