Polilaminina: entenda o potencial da substância e os testes que ainda precisam ser realizados

09/03/2026 às 10:51:35
Laboratório Cristália/ Divulgação

A pesquisa envolvendo a polilaminina, substância desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com a farmacêutica Cristália, ganhou grande repercussão recentemente por seu potencial no tratamento de lesões medulares. 

Apesar da expectativa em torno da descoberta, especialistas ressaltam que ainda são necessários novos testes para confirmar, de forma científica, a eficácia e a segurança do composto.

Os estudos são coordenados pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho e vêm sendo desenvolvidos há mais de 25 anos. Durante grande parte desse período, os pesquisadores realizaram testes laboratoriais, etapa conhecida como fase pré-clínica, considerada essencial antes da aplicação em seres humanos.

O que é a polilaminina

A polilaminina surgiu de forma inesperada durante pesquisas da professora Tatiana Sampaio sobre a laminina, proteína presente em várias estruturas do corpo humano. 

Ao utilizar um solvente durante experimentos, a pesquisadora percebeu que as moléculas não se separavam, como esperado, mas se uniam formando uma rede, estrutura que passou a ser chamada de polilaminina.

Posteriormente, os estudos mostraram que, no sistema nervoso, proteínas desse tipo funcionam como base para o crescimento dos axônios, estruturas dos neurônios responsáveis por transmitir sinais entre o cérebro e o restante do corpo.

Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, esses axônios são rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e as partes do corpo abaixo da área lesionada, o que provoca a paralisia. Como as células do sistema nervoso têm pouca capacidade de regeneração, a hipótese dos pesquisadores é que a polilaminina possa servir como uma nova base para o crescimento dessas estruturas e, assim, ajudar a restabelecer a comunicação neural.

Estudo-piloto com pacientes

Após resultados promissores em testes com animais, os pesquisadores realizaram um estudo-piloto entre 2016 e 2021 com oito pessoas que sofreram lesões graves na medula espinhal. Os participantes haviam se acidentado em situações como quedas, acidentes de trânsito ou ferimentos por arma de fogo.
Além da aplicação da substância, sete pacientes também passaram por cirurgia de descompressão da coluna, procedimento padrão nesses casos.
Dois pacientes morreram ainda no hospital em razão da gravidade dos ferimentos e outro faleceu posteriormente por complicações relacionadas à lesão. Entre os cinco sobreviventes que receberam o tratamento, todos apresentaram algum grau de recuperação motora.

Quatro deles evoluíram do nível A para o nível C na chamada escala AIS - sistema utilizado para medir a recuperação de sensibilidade e movimento após lesões medulares. Um paciente chegou ao nível D, recuperando sensibilidade e funções motoras com força muscular próxima do normal.
Um dos casos mais conhecidos é o de Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após fraturar a coluna em 2018. Em entrevista ao programa Sem Censura, ele relatou que voltou a movimentar o dedão do pé algumas semanas após o procedimento.

“Foi uma virada de chave. Na hora, para mim, não tinha valor mexer o dedão do pé e não mexer mais nada. Mas todo mundo comemorou e me explicaram que, quando passa um sinal do cérebro até uma extremidade, significa que o sinal está percorrendo o corpo inteiro”, contou.

Depois disso, Bruno iniciou um longo processo de fisioterapia e reabilitação na AACD. Hoje, ele consegue caminhar normalmente, apresentando apenas algumas limitações em movimentos das mãos.

Testes clínicos em andamento

Apesar dos resultados encorajadores, os pesquisadores ressaltam que o estudo-piloto não é suficiente para comprovar a eficácia do tratamento. Em alguns casos, pacientes com lesões medulares completas podem apresentar recuperação espontânea, o que exige estudos mais amplos para confirmar os efeitos da substância.
Por isso, os pesquisadores iniciarão agora a fase 1 dos ensaios clínicos, etapa que tem como principal objetivo avaliar a segurança do tratamento.

Segundo o farmacologista Eduardo Zimmer, nessa fase normalmente participam poucos voluntários, para verificar como o organismo reage ao medicamento.
Os testes com polilaminina devem envolver cinco pacientes voluntários, com idade entre 18 e 72 anos, que apresentem lesões medulares torácicas recentes. O procedimento será realizado no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Durante o acompanhamento, os pesquisadores irão monitorar possíveis efeitos adversos, alterações neurológicas e possíveis sinais de toxicidade.
Caso os resultados sejam positivos, a pesquisa poderá avançar para as fases 2 e 3, que envolvem um número maior de participantes e permitem avaliar com mais precisão a eficácia da substância.

Esperança com cautela

Especialistas destacam que a polilaminina representa uma possibilidade promissora para o tratamento de lesões medulares, condição que ainda possui poucas alternativas terapêuticas. No entanto, reforçam que é fundamental seguir todas as etapas científicas antes de confirmar sua efetividade.

Os ensaios clínicos devem ser acompanhados por órgãos reguladores como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e por comitês de ética em pesquisa, responsáveis por garantir a segurança dos participantes e a validade dos resultados.

Caso os testes confirmem a eficácia do tratamento, a descoberta poderá representar um avanço significativo da ciência brasileira e trazer novas perspectivas para milhões de pessoas que convivem com lesões na medula espinhal.

Com informações do F5 News