Da deslealde à derrota: acumulando atitudes oportunistas, Belivaldo tornou-se uma das maiores “bolas de chumbo” da política sergipana

Por Flavão Fraga
As eleições de 2026 produziram vencedores e derrotados que sequer estavam nas urnas. E, na minha avaliação, poucos saíram tão derrotados quanto o ex-governador Belivaldo Chagas.
Sua trajetória recente revela um roteiro repetitivo: rompe com antigos aliados, abraça novos projetos movido por interesses imediatos e, no final, parece carregar consigo um peso político cada vez maior.
A deslealdade com os Valadares
É impossível analisar Belivaldo sem voltar à sua relação com Antônio Carlos Valadares. Ele deve grande parte de sua ascensão política aos Valadares.
Foi o ex-governador e ex-senador quem abriu algumas das principais portas de sua carreira. Mas, quando Belivaldo enxergou caminhos politicamente mais vantajosos, o “galeguinho” mudou o tom sobre seu padrinho e o transformou em inimigo.
Rompeu com os Valadares e, em 2018, trabalhou justamente para derrotar Valadares Filho na disputa pelo Governo de Sergipe.
Na minha leitura, uma demonstração de deslealdade política com quem teve papel fundamental em praticamente tudo aquilo que Belivaldo havia conquistado até então.
E o tempo mostraria que não seria um episódio isolado.
O desgaste que Fábio herdou
Foi Belivaldo quem apresentou Fábio Mitidieri como candidato do seu agrupamento à sucessão estadual em 2022. Só que, junto com o apoio, Fábio herdou o desgaste de um governo que chegava ao fim sem grande entusiasmo popular.
O resultado apareceu nas urnas.
Fábio terminou o primeiro turno atrás de Valmir de Francisquinho e Rogério Carvalho. Com os votos de Valmir posteriormente considerados nulos pela Justiça Eleitoral, avançou ao segundo turno e acabou eleito governador.
Quatro anos depois, o cenário foi completamente diferente.
Fábio deixou de ser “o candidato de Belivaldo”. Construiu personalidade administrativa própria, formou seu grupo, estabeleceu sua maneira de governar e criou uma relação direta com o eleitorado.
Em 2026, foi reeleito no primeiro turno, com 59,27% dos votos válidos.
Talvez aí esteja uma das maiores derrotas políticas de Belivaldo: perceber que o sucessor que ajudou a lançar cresceu justamente quando deixou de carregar a imagem de continuidade de seu governo.
Yandra e outro naufrágio
No meio desse caminho, veio 2024.
Belivaldo aceitou ser candidato a vice-prefeito na chapa de Yandra Moura em Aracaju. Mesmo sendo ex-governador, foi mantido estrategicamente com pouca exposição durante parte da campanha.
Não funcionou.
A chapa terminou apenas na terceira colocação, com 14,47% dos votos válidos.
É evidente que nenhuma derrota pode ser atribuída exclusivamente a um candidato a vice. Mas seria ingenuidade ignorar que Belivaldo já carregava naquele momento um desgaste político considerável.
Fábio cumpriu mais do que o combinado
Por isso, considero ainda mais difícil encontrar justificativa política consistente para a forma como Belivaldo rompeu com Fábio Mitidieri.
Fábio não perseguiu Belivaldo nem fechou portas para sua família. Pelo contrário. Na minha avaliação, cumpriu além do que havia sido politicamente acertado.
José Carlos Felizola Filho, genro de Belivaldo, permaneceu inicialmente no primeiro escalão e depois foi indicado pelo governador para uma cadeira vitalícia de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.
E houve mais.
Fábio também trabalhou politicamente pela aprovação de Priscila Felizola para a Superintendência do Sebrae Sergipe, onde ela, por sinal, realizou um grande trabalho e conquistou reconhecimento próprio.
Não houve abandono político. Houve espaço, prestígio e posições importantes para a família.
Mesmo assim, Belivaldo foi politicamente desleal com Fábio, sem que houvesse, na minha avaliação, motivo proporcional para tamanho rompimento.
Rompe com Fábio e aposta em Valmir
A questão da vice passou a ocupar o centro da disputa.
Belivaldo queria Priscila Felizola na chapa governista. Fábio seguiu outro caminho e disputou a reeleição ao lado de Jeferson Andrade.
Foi suficiente para uma nova mudança de lado.
Belivaldo atravessou a avenida e foi justamente para o campo de Valmir de Francisquinho. Priscila tornou-se candidata a vice de Valmir.
A aposta era clara: derrotar o sucessor que ele próprio havia ajudado a lançar quatro anos antes.
Fracassou.
De adversário a aliado de Valmir
A aliança carregava ainda uma enorme contradição.
Durante anos, Valmir relacionou sua prisão em 2018 a uma perseguição política ocorrida durante o governo Belivaldo. Depois, os dois terminaram abraçados no mesmo projeto eleitoral.
Adversários podem fazer as pazes. Política também é feita de recomposições. Mas a sociedade tem todo o direito de cobrar coerência.
Belivaldo terminou 2026 apoiando justamente o homem que durante anos confrontou seu governo e enfrentando aquele que ele próprio havia escolhido como sucessor.
A frase que voltou contra ele
Talvez nenhum episódio simbolize melhor essa derrota do que uma declaração de Belivaldo antes da eleição.
Ao apostar na vitória de Valmir, afirmou que não seria fácil para Fábio Mitidieri dormir e acordar com o adversário governador. Disse que aquilo iria “doer e muito”.
As urnas responderam.
Só que na direção contrária.
Fábio dormiu governador e acordou governador reeleito — no primeiro turno e com mais de 59% dos votos válidos.
Não caiu apenas uma previsão eleitoral. Caiu toda uma narrativa.
A bola de chumbo
Belivaldo já havia participado da chapa derrotada de Yandra em Aracaju, em 2024. Em 2026, mudou novamente de lado, levou a filha para a vice de Valmir e apostou todas as fichas na derrota de Fábio.
Perdeu novamente.
Por isso, hoje enxergo Belivaldo como uma das maiores “bolas de chumbo” da política sergipana: um ex-governador que nunca teve no carisma sua principal virtude, mas já possuiu enorme influência e capacidade de articulação. Hoje, parece ter perdido também a capacidade de agregar votos e ampliar eleitoralmente os projetos dos quais participa.
Ao contrário: sua presença passou a carregar um enorme passivo político para os projetos aos quais se associa.
Priscila não precisa carregar esse peso
Há, porém, um aspecto lamentável nessa história: Priscila Felizola não deveria pagar pelas escolhas políticas do pai.
Ela tem formação, experiência administrativa e trajetória própria. Foi a primeira mulher a comandar a Superintendência do Sebrae em Sergipe, realizou um grande trabalho na instituição e é uma pessoa leve e carismática.
Tem qualidades e tempo para construir sua própria história política.
Mas, para isso, talvez precise ser reconhecida pelo que é — e não pelas guerras, ressentimentos, interesses imediatos e rompimentos escolhidos pelo pai.
O julgamento das urnas
Belivaldo deve grande parte de sua trajetória aos Valadares e os descartou quando enxergou um caminho que lhe pareceu mais vantajoso. Terminou seu governo desgastado, foi vice numa chapa derrotada em Aracaju e, mesmo depois de Fábio Mitidieri prestigiar sua família e cumprir além dos compromissos políticos assumidos, rompeu também com o sucessor.
Mais uma vez, buscou um novo atalho político em nome de uma vantagem imediata.
Deu errado.
Apostou em Valmir, tentou colocar a filha na vice, trabalhou pela derrota de Fábio e ainda antecipou publicamente a dor que imaginava que o governador sentiria após a eleição.
O resultado foi exatamente o contrário.
Fábio Mitidieri saiu das urnas reeleito governador no primeiro turno, fortalecido, com liderança própria e definitivamente independente da tutela política de quem o apresentou em 2022.
Belivaldo não estava na urna.
Mas perdeu.
E talvez tenha saído de 2026 com uma marca ainda mais pesada: depois de tantos rompimentos, mudanças de lado e apostas malsucedidas guiadas pela conveniência das vantagens imediatas, o antigo articulador tornou-se uma das maiores bolas de chumbo da política sergipana.
Um fardo difícil de carregar!












