A régua de Lula: ao considerar “enterradas” as carreiras de ex-aliados derrotados, presidente assume o risco de ser medido pela mesma régua.

12/10/2026 às 16:12:06
Resumo: Ao tripudiar das derrotas de Ciro Gomes, no Ceará, e Ciro Nogueira, no Piauí, decretando em tom de deboche o enterro de suas carreiras políticas, Lula adota uma postura que pode ser interpretada como descuidada e muito perigosa. Quando desconsidera publicamente trajetórias políticas relevantes com base em resultados eleitorais desfavoráveis a dois de seus atuais adversários, o presidente da República abre um precedente arriscado: o de ver seus próprios oponentes utilizarem o mesmo discurso contra ele, caso seja derrotado nas urnas.

ANÁLISE DO FF

A régua de Lula: ao considerar “enterradas” as carreiras de ex-aliados derrotados, presidente corre o risco de ser medido pelo mesmo critério

 

Durante um ato de campanha realizado neste domingo (11), na Avenida Paulista, em São Paulo, o presidente Lula fez declarações provocativas ao apresentar dois governadores petistas reeleitos. Sobre Rafael Fonteles, do Piauí, afirmou: “E o mais importante é que ele enterrou a carreira política do Ciro Nogueira”. Ao anunciar Elmano de Freitas, do Ceará, declarou: “Agora vai falar um cara que foi reeleito governador do Ceará e enterrou a carreira política do Ciro Gomes, derrotando Ciro Gomes”. As referências foram ao senador Ciro Nogueira (PP), derrotado na disputa pela reeleição ao Senado pelo Piauí, e ao ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que tentou retornar ao Governo do Ceará, mas perdeu para Elmano no primeiro turno.

A fala de Lula foi infeliz e revelou certa dose de prepotência. Além de desnecessária, a provocação foi indelicada com dois personagens que já estiveram ao seu lado e possuem trajetórias relevantes na política brasileira. Ciro Nogueira, mesmo sem conquistar um novo mandato, continua presidindo o Progressistas, uma das principais legendas do país e força expressiva do Centrão. Ciro Gomes, por sua vez, é um quadro experiente, preparado e respeitado, com reconhecida capacidade de formulação e uma longa trajetória de participação no debate nacional. Divergências e derrotas eleitorais não apagam a história nem as contribuições de ninguém.

O próprio Lula deveria compreender isso melhor do que ninguém. Afinal, perdeu três eleições presidenciais consecutivas, em 1989, 1994 e 1998, antes de conquistar a Presidência em 2002. Se a derrota representasse o sepultamento de uma carreira política, a trajetória do próprio presidente teria terminado muito antes de suas maiores vitórias.

E aqui cabe uma provocação: diante da possibilidade de uma derrota de Lula para Flávio Bolsonaro no segundo turno, seus adversários também poderão anunciar que sua carreira política foi enterrada? Terão legitimidade para tripudiar sobre sua derrota com a mesma indelicadeza? Ao estabelecer essa régua para julgar os outros, Lula abre espaço para que ela seja aplicada contra ele próprio.

Na política, vitórias e derrotas são circunstâncias, não sentenças definitivas. O respeito à trajetória dos adversários deveria sobreviver às disputas eleitorais. Afinal, quem hoje comemora o suposto enterro político dos outros precisa estar preparado para ouvir o mesmo discurso amanhã.

As declarações e o contexto do ato foram conferidos em reportagens publicadas em 11 de outubro de 2026.