O reencontro anunciado: quando a história chama Rogério e Fábio de volta ao mesmo palanque

26/03/2026 às 14:08:45

Por: Flavão Fraga

A política, como a vida, é feita de ciclos. E, em Sergipe, poucos movimentos parecem tão naturais quanto o possível reencontro entre Rogério Carvalho (PT) e Fábio Mitidieri (PSD) no tabuleiro eleitoral de 2026.

Embora tenham trilhado caminhos distintos na eleição estadual de 2022, o afastamento foi muito mais circunstancial do que estrutural. O histórico de ambos é de proximidade, diálogo e construção conjunta — elementos que ajudam a explicar por que essa reaproximação não soa como surpresa, mas como uma espécie de retorno ao curso natural dos acontecimentos.

É preciso voltar no tempo para entender o presente. Ainda em 2011, no processo de fundação do PSD e sua organização em Sergipe, Rogério Carvalho, então deputado federal, contribuiu na estruturação inicial da sigla no estado sob a liderança do saudoso Marcelo Déda, o grande padrinho do PSD à época. Foi ali que se consolidaram as pontes com o grupo político dos Mitidieri, que mais tarde se tornaria uma das forças centrais da política sergipana.

A parceria se fortaleceu em 2014, quando Rogério decidiu disputar o Senado e contou com o apoio firme do clã Mitidieri. Em um movimento de reciprocidade, abriu espaço para lideranças aliadas fortalecerem a primeira candidatura de Fábio Mitidieri à Câmara Federal. Não era apenas um gesto político — era a construção de um projeto comum.

Nos anos seguintes, essa sintonia se manteve. Em 2016, caminharam juntos em diversos municípios, incluindo Boquim, berço político da família Mitidieri. Já em 2018, a afinidade atingiu um novo patamar quando o empresário Jorge Mitidieri, tio do atual governador, foi convidado para ser o primeiro suplente de Rogério ao Senado. Naquele momento, todos estavam alinhados em torno da reeleição de Belivaldo Chagas.

Até 2022, o diálogo seguia vivo. Nos bastidores, chegou-se a ventilar a possibilidade de uma composição direta, com Fábio integrando uma chapa liderada por Rogério. O cenário não se concretizou por decisões estratégicas do grupo governista: Belivaldo Chagas manifestou preferência pelo nome de Fábio, levando Rogério Carvalho à opção política de romper com o governo e realizar um "voo solo". Como ainda possuía quatro anos de mandato como senador, a disputa pelo governo era uma aposta sem riscos imediatos.

A relação entre ambos azedou durante a acirrada disputa do segundo turno, com acusações que deixaram feridas, algo comum em embates onde a vitória é decidida no detalhe.

Agora, o contexto é outro — e talvez ainda mais propício à reunificação. O cenário nacional exige alinhamentos claros, especialmente em torno do fortalecimento do projeto liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca consolidar palanques amplos em todos os estados.

Nesse ponto, há um fator decisivo: a necessidade política de Fábio Mitidieri buscar o apoio direto de Lula. Além de ser o maior cabo eleitoral do Nordeste, o presidente exerce forte influência sobre o eleitorado regional. Em um cenário onde a tendência aponta que eleitores bolsonaristas votem majoritariamente em candidatos de oposição ao governo estadual, o alinhamento de Fábio com Lula deixa de ser apenas uma opção e passa a ser uma estratégia essencial.

Fábio, inclusive, não chega a esse movimento como um estranho. Sua trajetória demonstra coerência com esse campo: votou contra o impeachment de Dilma Rousseff e, ao longo dos anos, manteve posicionamentos alinhados a pautas progressistas, além de historicamente se declarar eleitor de Lula.

Há, portanto, mais convergências do que divergências neste momento. Estes dois personagens não disputam os mesmos espaços, mas possuem um foco nacional em comum.

Para além das afinidades ideológicas, existe a questão pragmática: a necessidade de fortalecimento político e administrativo. Um eventual alinhamento entre Rogério e Fábio representa a união de dois "pesos pesados", com capacidade comprovada de articulação eleitoral e captação de recursos — algo essencial para o desenvolvimento dos municípios e que poderá ser decisivo no pleito.

No fim das contas, o que se desenha não é apenas uma aliança eleitoral, mas a reedição de um projeto que já mostrou força. É a convergência de forças que, historicamente, caminharam juntas. Se 2022 foi o ponto de inflexão, 2026 tem tudo para ser o capítulo da reconciliação.