Lulismo: o desafio de vencer o peso do tempo e oferecer ao eleitor algo além das conquistas do passado

Tudo na vida tem começo, meio e fim. Na política, não é diferente. Lula construiu uma trajetória que o coloca entre os maiores líderes populares da história brasileira, ao lado de Getúlio Vargas. Saiu do movimento sindical, chegou à Presidência, enfrentou a prisão, recuperou seus direitos políticos e voltou ao poder. Poderia ter aproveitado esse retorno para preparar um sucessor no PT ou construir uma transição para uma liderança social-democrata, como Geraldo Alckmin. Entretanto, insistiu em permanecer no centro do projeto político, adiando a renovação partidária.
Mas existe um adversário que nenhum político consegue vencer definitivamente: o tempo. Não apenas o cronológico, mas o de discursos repetidos, promessas ainda não integralmente cumpridas e transformações sociais que exigem novas respostas. A internet, a inteligência artificial e as mudanças nas relações de trabalho ampliaram o debate sobre empreendedorismo, inovação, educação tecnológica e competitividade econômica. Uma das críticas dirigidas ao PT é que as pautas identitárias e de costumes ganharam maior destaque no discurso partidário, enquanto propostas de modernização econômica, estímulo ao desenvolvimento e outras questões de impacto direto na vida da população nem sempre receberam o mesmo protagonismo.
E é justamente nesse ponto que a reflexão do estrategista eleitoral Nerivaldo Ferreira se encaixa nesta análise. Ao observar que o eleitor não vota apenas no passado, mas nos compromissos e nas expectativas de futuro, ele chama a atenção para um desafio que ultrapassa a trajetória de Lula. Afinal, não basta apresentar um histórico de realizações, por mais relevantes que elas sejam. É preciso oferecer algo novo, despertar esperanças e demonstrar o que ainda poderá ser feito. Na avaliação do estrategista, Lula tem um passado de conquistas para apresentar, mas enfrenta dificuldades para construir uma agenda capaz de entusiasmar o eleitorado com o amanhã. O passado pode sustentar a credibilidade de uma liderança, mas não substitui a necessidade de apresentar respostas para o futuro.
O próprio PT oferece um exemplo de sucessão política na Bahia, onde Jaques Wagner apoiou Rui Costa e, posteriormente, o grupo político elegeu Jerônimo Rodrigues. Nacionalmente, porém, Lula continua sendo a principal referência eleitoral do partido. Essa centralidade alimenta críticas ao personalismo e à dificuldade de consolidar novas lideranças, além de levantar questionamentos sobre a participação de outros partidos e aliados nas decisões do governo.
Outro ponto de discussão é a estratégia diante do bolsonarismo. A prisão de Jair Bolsonaro não encerrou a força política de seu movimento. Flávio Bolsonaro assumiu o protagonismo da candidatura presidencial da direita e tem apresentado a prisão do pai sob a narrativa de perseguição política e de críticas ao STF. Sua campanha procura ajustar a linguagem, evitar controvérsias verbais associadas ao pai, ampliar alianças e incorporar propostas de antigos concorrentes. Lula, por sua vez, enfrenta dificuldades para atualizar sua comunicação e dialogar com novos segmentos do eleitorado. Aos 80 anos, a necessidade de planejar sua sucessão também ganha relevância, independentemente de sua capacidade pessoal para exercer o cargo.
O lulismo enfrenta o peso do tempo, a falta de renovação e o desafio de acompanhar uma sociedade em constante transformação. Uma eventual derrota nas urnas poderá acelerar o fim de um ciclo e deixar uma lição: na política, não basta apresentar as conquistas do passado. É preciso demonstrar o que ainda se tem a oferecer e quais contribuições podem ser dadas para construir o futuro.












