Lulismo: o desafio de vencer o peso do tempo e oferecer ao eleitor algo além das conquistas do passado

10/10/2026 às 22:39:53
Resumo: O tempo transforma a sociedade, modifica as relações de trabalho e exige novas respostas da política. Aos 80 anos, Lula parece não ter encarado a necessidade de renovar um projeto excessivamente dependente de sua figura. Na avaliação do estrategista Nerivaldo Ferreira, o eleitor não vota apenas nas realizações do passado, mas também nas expectativas de futuro. Uma eventual derrota do PT nas urnas pode acontecer por esses motivos.

 

Tudo na vida tem começo, meio e fim. Na política, não é diferente. Lula construiu uma trajetória que o coloca entre os maiores líderes populares da história brasileira, ao lado de Getúlio Vargas. Saiu do movimento sindical, chegou à Presidência, enfrentou a prisão, recuperou seus direitos políticos e voltou ao poder. Poderia ter aproveitado esse retorno para preparar um sucessor no PT ou construir uma transição para uma liderança social-democrata, como Geraldo Alckmin. Entretanto, insistiu em permanecer no centro do projeto político, adiando a renovação partidária.

Mas existe um adversário que nenhum político consegue vencer definitivamente: o tempo. Não apenas o cronológico, mas o de discursos repetidos, promessas ainda não integralmente cumpridas e transformações sociais que exigem novas respostas. A internet, a inteligência artificial e as mudanças nas relações de trabalho ampliaram o debate sobre empreendedorismo, inovação, educação tecnológica e competitividade econômica. Uma das críticas dirigidas ao PT é que as pautas identitárias e de costumes ganharam maior destaque no discurso partidário, enquanto propostas de modernização econômica, estímulo ao desenvolvimento e outras questões de impacto direto na vida da população nem sempre receberam o mesmo protagonismo.

E é justamente nesse ponto que a reflexão do estrategista eleitoral Nerivaldo Ferreira se encaixa nesta análise. Ao observar que o eleitor não vota apenas no passado, mas nos compromissos e nas expectativas de futuro, ele chama a atenção para um desafio que ultrapassa a trajetória de Lula. Afinal, não basta apresentar um histórico de realizações, por mais relevantes que elas sejam. É preciso oferecer algo novo, despertar esperanças e demonstrar o que ainda poderá ser feito. Na avaliação do estrategista, Lula tem um passado de conquistas para apresentar, mas enfrenta dificuldades para construir uma agenda capaz de entusiasmar o eleitorado com o amanhã. O passado pode sustentar a credibilidade de uma liderança, mas não substitui a necessidade de apresentar respostas para o futuro.

O próprio PT oferece um exemplo de sucessão política na Bahia, onde Jaques Wagner apoiou Rui Costa e, posteriormente, o grupo político elegeu Jerônimo Rodrigues. Nacionalmente, porém, Lula continua sendo a principal referência eleitoral do partido. Essa centralidade alimenta críticas ao personalismo e à dificuldade de consolidar novas lideranças, além de levantar questionamentos sobre a participação de outros partidos e aliados nas decisões do governo.

Outro ponto de discussão é a estratégia diante do bolsonarismo. A prisão de Jair Bolsonaro não encerrou a força política de seu movimento. Flávio Bolsonaro assumiu o protagonismo da candidatura presidencial da direita e tem apresentado a prisão do pai sob a narrativa de perseguição política e de críticas ao STF. Sua campanha procura ajustar a linguagem, evitar controvérsias verbais associadas ao pai, ampliar alianças e incorporar propostas de antigos concorrentes. Lula, por sua vez, enfrenta dificuldades para atualizar sua comunicação e dialogar com novos segmentos do eleitorado. Aos 80 anos, a necessidade de planejar sua sucessão também ganha relevância, independentemente de sua capacidade pessoal para exercer o cargo.

O lulismo enfrenta o peso do tempo, a falta de renovação e o desafio de acompanhar uma sociedade em constante transformação. Uma eventual derrota nas urnas poderá acelerar o fim de um ciclo e deixar uma lição: na política, não basta apresentar as conquistas do passado. É preciso demonstrar o que ainda se tem a oferecer e quais contribuições podem ser dadas para construir o futuro.