A lição de 2026: “Os votos de ontem não garantem os votos de amanhã"

05/10/2026 às 08:11:48
Resumo: Vitória de Fábio Mitidieri (PSD) sobre Valmir de Francisquinho (Republicanos) mostra que capital político precisa ser renovado e que nenhuma eleição começa com votos transportados; enquanto Fábio teve foco e disciplina na construção de uma estratégia para 2026, Valmir manteve a mente presa ao cenário eleitoral de quatro anos atrás

Por Flavão Fraga

 

“Os votos de ontem não garantem os votos de amanhã.” A frase talvez seja a melhor síntese para compreender a vitória de Fábio Mitidieri (PSD) sobre Valmir de Francisquinho (Republicanos), ainda no primeiro turno da eleição deste domingo, 4. O resultado deixa uma lição importante: capital político não é patrimônio permanente. Ele se conquista, aumenta, diminui e precisa ser renovado diariamente.

Durante os últimos quatro anos, levantamos repetidamente, nos programas de rádio e podcasts dos quais participamos, uma questão: por que imaginar que os votos conquistados por Valmir em 2022 estariam automaticamente preservados para 2026? O eleitor muda, as circunstâncias mudam e a percepção sobre os personagens também. Principalmente porque o Fábio Mitidieri de 2022 não era o mesmo Fábio Mitidieri que chegou às urnas quatro anos depois.

Em 2022, Fábio era deputado federal, ainda pouco conhecido por uma parcela significativa dos sergipanos e apoiado pelo então governador Belivaldo Chagas (PSD), que enfrentava forte desgaste popular. Terminou o primeiro turno em terceiro lugar e avançou após o impedimento judicial de Valmir, derrotando Rogério Carvalho (PT) no segundo turno. Ao assumir o governo, porém, Fábio entendeu que precisava construir seu próprio capital político.

Sem possuir o mesmo perfil popular de Valmir, Fábio buscou, com determinação, foco e disciplina tática, compensar essa deficiência em duas frentes: articulação política e resultados de gestão. O PSD tornou-se o centro de um amplo e plural arco de alianças. Fábio conseguiu conviver com forças e personagens de campos ideologicamente antagônicos, reunindo desde o PT de Rogério Carvalho até setores conservadores, como o senador Laércio Oliveira (PP), passando pelo delegado Alessandro Vieira (MDB), além de contar com André Moura (União Brasil), uma das principais lideranças de agrupamento do Estado, em seu campo político. Construiu, assim, uma das mais amplas e heterogêneas alianças da história política recente de Sergipe. Fábio conseguiu ainda a proeza de receber o apoio declarado de quatro candidatos ao Senado, fato inédito na política sergipana.

Além disso, Mitidieri transformou sua gestão em seu principal cartão de visitas. Em vez de tentar disputar com Valmir no aspecto popular — território em que o político itabaianense sabe caminhar com grande capacidade —, Fábio transferiu o confronto para o terreno administrativo, onde buscou apresentar entregas e resultados positivos. Segurança pública, geração de emprego e renda, investimentos em saúde, infraestrutura e outras ações passaram a sustentar sua estratégia e a narrativa da campanha. A proposta foi fazer o eleitor comparar governos, e não personalidades.

O tempo, por outro lado, também trabalhou contra Valmir. Em 2022, o candidato do Republicanos representava para muitos eleitores uma novidade e uma esperança de mudança. Quatro anos de exposição estadual aumentaram o escrutínio sobre sua trajetória administrativa em Itabaiana. Saúde, educação e outros aspectos de suas gestões passaram a ser questionados e utilizados pelos adversários. Valmir deixou de ser apenas uma novidade eleitoral e passou a ter também um histórico administrativo submetido à comparação e às críticas.

Talvez o maior erro estratégico de Valmir tenha sido permanecer excessivamente com a mente presa à realidade de 2022. É compreensível que o impedimento de sua candidatura tenha deixado marcas políticas e pessoais, mas a narrativa de que havia sido vítima e de que os votos daquela eleição permaneceriam esperando por ele tinha prazo de validade. Enquanto Fábio demonstrava foco e disciplina na construção de uma estratégia para chegar mais forte a 2026, Valmir parecia confiar que boa parte daquele sentimento eleitoral permaneceria congelada durante quatro anos. Enquanto um construía a eleição seguinte, o outro continuava olhando demasiadamente para a eleição anterior.

Esse foi o contraste fundamental: Valmir confiou demasiadamente na memória eleitoral; Fábio apostou na construção de uma nova realidade. O Republicanos tinha como principal patrimônio a força eleitoral acumulada por Valmir. O PSD trabalhou para ampliar a força de Fábio por meio de alianças, gestão, entregas e exposição administrativa. Uma eleição não fica congelada durante quatro anos — e muito menos o comportamento do eleitor.

Toda eleição começa com o placar zerado. O eleitor volta a perguntar quem cresceu, quem perdeu força, quem entregou resultados, quem renovou seu discurso e quem conseguiu interpretar melhor o sentimento daquele momento. O Fábio de 2026 chegou mais conhecido, governador, politicamente fortalecido e com uma gestão para apresentar. Valmir chegou mais conhecido também, mas, justamente por isso, muito mais exposto e sujeito à comparação.

A principal lição das urnas serve para Valmir, Fábio e qualquer outra liderança política: voto não tem dono. Nenhum resultado passado representa uma escritura de propriedade sobre o eleitor. Política é movimento e construção permanente. Quem acredita que pode simplesmente transportar para amanhã os votos conquistados ontem corre o risco de descobrir, quando as urnas forem abertas, que o cenário já mudou. Porque “os votos de ontem não garantem os votos de amanhã.”